O BICHO-PAPÃO DE SETE CABEÇAS

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É noite. Meus pais estão dormindo, mas eu ainda não consegui pegar no sono. Minha mãe sempre me diz para contar carneirinhos. Conto até cinqüenta, depois desisto porque fico com pena dos pobres bichinhos. Como ainda sou pequeno, acredito que não seja possível caber tantos animais em minha cabeça. Já aprendi a tabuada do cinco e sei que 5×10 é cinqüenta. Então, acho que são apenas cinco pobres carneirinhos que ficam se repetindo até eu pegar no sono. E não acho justo eles ficarem correndo atrás do sono por  mim.

     Às vezes tenho medo da noite. Medo de fantasmas, vampiros e todos aqueles monstros que também não conseguem dormir. Desconfio que eles não sabem contar carneirinhos. Se eu não tivesse tanto medo deles, lhes ensinaria a tabuada do cinco.

     Sempre que fico assustado por causa do escuro, me cubro com meu lençol. Então, espero ba-ba-batendo os dentes, feito a dentadura da vovó, quando está com frio, até as coisas ruins irem embora. Isso muitas vezes funciona. Desconfio que é porque fico parecendo um fantasminha debaixo do lençol. Assim, eles se assustam e fogem.

     Minha irmã, todas às noites, dorme com uma camisola da mamãe enrolada ao pescoço, chupando o dedo. É que ela tem medo de ser atacada por um vampiro. A camisola é vermelha e parece uma capa pendurada em suas costas. Às vezes, temo que ela seja uma vampira, também. Ela fala enquanto dorme e ronca.

     Mamãe diz para eu rezar ao meu anjo da guarda para me proteger, mas ele sempre está paquerando as anjinhas da guarda das amigas de minha irmã. Ontem, pedi a ele pra me passar a cola de uma conta de matemática, durante a prova, e ele me mandou um poema de amor que tinha escrito para a anja que protege a professora. Levei um zero e uma suspensão.

     Acho que ouvi um barulho estranho. Será que é algum bicho-papão de sete cabeças? Será que ele já jantou? Onde está a mamadeira da minha irmã? Não adianta, ele tem sete cabeças! Estou perdido. Se eu sair vivo desta, preciso pedir para a mamãe comprar canudinhos. Assim o monstro vai poder beber na mamadeira da minha irmã da próxima vez. Ouvi o barulho outra vez. Parece barulho de baba caindo no chão. Ele deve estar realmente faminto. Será que ele tem sete estômagos também? Caso sim, então ele deve ter uma creche dentro da barriga. Tanta comida deliciosa por aí, e este monstro gosta de comer criancianhas que, às vezes, nem tomam banho antes de dormir. Bicho nojento! Ai, outra baba pingou no chão. Tomara que ele escorregue e quebre as cabeças!

     Tomb! Crash! Pum!

     Obrigado, meu anjo da guarda, por ter me ouvido. Pela primeira vez, você não me deixou na mão. Hã! Você  quer o telefone da Priscila em troca desse favor?! Seu interesseiro!

     Espera aí, é a voz da mamãe que ouço vir lá de onde caiu o monstro…

     – O que foi, querido?

     Que história é essa!?! Mamãe está namorando o bicho-papão de sete cabeças, pois ela o chamou de querido. Agora não estou entendendo mais nada…

     – Não foi nada, querida. Eu apenas me levantei para fechar a torneira do banheiro, que estava pingando, e acabei escorregando.

     Ei, é a voz do papai! Puxa vida! Acho que dormi e nem percebi, pois isto está parecendo um pesadelo. Talvez seja melhor eu acordar e ir tomar um copo d’água. A maninha nem vai acreditar nesta história.

 

Para Andréia Rosa

 

Gilson Rosa

3 respostas em “O BICHO-PAPÃO DE SETE CABEÇAS

    • Obrigado, Chris!
      Escrevi essa historinha em 1998, no mesmo ano que tirei o terceiro lugar no Concurso de Poesia Falada, com um poema chamado Películas da Alma. Ganhei 500 reais, que na ocasião me ajudaram muito.
      Tentei dar sequência a esse miniconto infantil, mas não consegui criar nada à altura de O Bicho-Papão. Talvez seja melhor deixar essa personagem de lado e trabalhar em outras histórias, que não precisem estar conectadas.
      Já que você tocou no assunto, vou começar a dedilhar duas histórias que já tenho em mente.

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