A Morte E Seus Costumes

 

No Brasil, quando alguém morre, costumamos dizer que a pessoa foi desta para uma melhor. Em inglês, utiliza-se a expressão to pass away (ir para longe, ir-se). E em chinês 去世 [qu4 shi4] (partir do mundo). Acredito que em muitos idiomas haja expressões equivalentes para evitar mencionar o nome daquela que, inevitavelmente, um dia teremos que olhar na cara: a dita cuja.

Nunca tinha ido a um enterro, porém na segunda-feira passada o pai de uma das chinesas com quem trabalho sofreu um acidente de moto, enquanto ia para o trabalho, convertendo-se no protagonista do último e um dos únicos momentos em que realmente pensamos na vida. Sentado no ônibus do clube de futebol em que trabalho, o Liaoning São Paulo Futebol Clube, olhava a paisagem agreste da zona rural de Shenyang projetar-se e mesclar-se com as memórias dos cenários que costumava ver nos filmes chineses, dentre elas a do longa Nenhum a Menos, do consagrado diretor chinês Zhang Yimou: plantacões de milho, fábricas de azulejos, cortinas de poeira. Uma estrada rudimentar, cheia de buracos, vinha confirmar a mim e a meus amigos brasileiros que seguiam para o enterro – um deles namorado da filha do finado – o motivo do acidente. Na China, é muito comum dirigir sem capacete ou sem cinto de segurança. Um claro exemplo é que sempre fico com a camisa suja quando pego um taxi. O motorista me olha com cara de espanto, às vezes molestado, por pensar que não confio em suas habilidades de condutor.

A motocicleta do acidentado tinha passado por um buraco e o lançara longe. Se não tivesse sido por conta de ter quebrado o ombro, ele teria seguido adiante trabalhando, em sua tarefa de fiscal da zona rural. No hospital, disseram que fosse a uma outra unidade, especializada em fraturas. No ônibus, começou a sentir tontura e a vomitar. Os médicos não atentaram para o fato de que sofrera traumatismo craneano e hemorragia interna. Creio que nao é necessario comentar o desfecho.

Na China, pelo menos na região de Shenyang, na província de Liaoning, a cerimônia de despedida dura três dias. No primeiro, foram armadas três tendas fora de casa: uma para cozinhar, outra para que as pessoas presentes se sentassem e uma terceira para que fossem postos alguns pertences do falecido. Esta última fica um pouco distante da casa, na qual se monta uma espécie de santuário com fotos, roupas e frutas. Do lado esquerdo da tenda, tinham dois bonecos, vestidos tradicionalmente, prostrados diante da miniatura de uma casa com inscrições na fachada. Do lado direito, via-se um cavalo preto, grande, feito de papel. Nas laterais, duas guirlandas de flores, grandes, bonitas e coloridas. Num ritual, repleto de choro e gritos pungentes, queimavam-se peças de roupas e fotos do defunto. De repente, fogos de artifício começam a estourar. E as pessoas passam, uma a uma, a fazer três reverências diante da tenda. Ao fundo, o filho mais novo e a filha mais velha encontram-se sentados no chão, completamente absortos em lágrimas.

Outra coisa que me chamou a atenção, os filhos e demais parentes usavam uma tira branca atada na cintura como sinônimo de luto. E, assim como nos casamentos, é comum que se ofereça dinheiro para ajudar a família com os gastos do enterro.

Minha chefe, que é parente do finado, comenta, em um dado momento, que na China não é permitido o enterro em caixões. O morto tem que ser cremado e as cinzas guardadas numa caixinha de madeira, a qual, si, pode ser enterrada. No terceiro dia, fomos à cerimônia de cremação. Nunca tinha visto ninguém sofrer tanto como a minha colega de trabalho, sua mãe e sua tia. Desmaios, desespero e gritos histéricos, ao ver o corpo do ente querido pela última vez, ressoavam pelas paredes de um salão grande. Decorado com algumas flores. A funcionária da funerária, vestida de azul, fez um discurso em homenagem ao pobre homem. Os visitantes fizemos três reverências, em pé, enquanto os membros da família reverenciavam ajoelhando-se e tocando a cabeça no chão.

Terminada a cerimônia, seguimos para o cemitério no qual seria enterrada a caixinha com as cinzas. Como tinha me levantado às quatro da madrugada, estava sonolento e fiquei no microônibus. Ao voltar para a casa de minha colega, ainda que fosse cedo, algo como dez da manhã, almoçamos. Antes de entrar na casa, tivemos que lavar as mãos, olharmo-nos num espelho e passar por cima de um objeto de madeira – que se parecia com uma sela de cavalo. Feito isso, nos ofereceram balas e bolachas doces para cortar o gosto amargo das lágrimas. Após o enterro, não é mais permitido chorar. E a filha ou o filho mais velho não podem lavar o rosto durante três dias. Na hora de irmos embora, nos disseram que não podíamos nos despedir da filha mais velha e nem olhar para trás. Seguimos, assim, nosso caminho estrangeiro, porém transformados pela morte e seus diferentes costumes.

 

Gilson Rosa
Shenyang, junho de 2006
 

Originalmente publicado em espanhol, especialmente para  o extinto portal TodaChina.com (www.todachina.com) em 14 de junho de 2006.

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