Cinema Mudo 

Ser intérprete requer muito mais que o domínio de duas línguas, é preciso saber representar também – ter em si um aspirante ao Oscar. 

  

Recentemente, fui contratado por um cliente antigo para fingir não saber chinês nem inglês e participar de algumas reuniões como um mero técnico, ouvindo as conversas dos chineses e garimpando valiosos segredos que poderiam ser revelados durante as negociações.
  

Por conta disso, me vi obrigado a proferir incorretamente palavras simples como “xièxie”, que significa obrigado em chinês, com o trivial erro de pronúncia cometido pelos brasileiros, “tchietchie”, e deixar-me humildemente ser corrigido inúmeras vezes enquanto o interlocutor esboçava um sorriso sarcástico que evidenciava estar ele na presença da mais estúpida e inapta pessoa para aprendizagem de idiomas. 
Tirando proveito da situação, eu invertia os papéis e me divertia ao forçar o contratante a fazer às vezes de intérprete, cada vez que um dos chineses – eram dois, o chefe e um esfuziante gerente de vendas – me dirigia a palavra. 
 O clímax dessa desventura linguística estabeleceu-se quando, no último dia, o contratante e eu nos separamos. Ele seguiu para outra direção no conforto das alturas, enquanto eu tive que retornar para Xangai de trem para atender um outro cliente que chegaria dali a dois dias. 

 

 A passagem já havia sido comprada pela internet, porém não atentara para o fato dela ter sido cancelada, uma vez que o e-mail de cancelamento tinha sido enviado para a caixa de “spams”. Sem poder tomar decisão nenhuma, tendo que me esmiuçar através de mímicas e frases desconexas em inglês, vi o problema da falta de passagem amenizar-se de maneira irônica: um último bilhete comprado no último instante que me contemplou com uma viagem de 26 horas em pé. 

 

 Foram 26 horas me contorcendo num banquinho portátil – que o gerente de vendas muito prestativo me comprara – em meio a um vagão quase lotado de Uyghurs, uma das 56 minorias étnicas chinesas de descendência turca e praticante do islamismo, que habita a província autônoma de Xinjiang, situada no noroeste do país.
  
Com aparência de ciganos maltrapilhos,  os Uyghurs dormiam espalhados sob os assentos, cedendo espaço para que outros do grupo se acomodassem melhor nos bancos tão duros e desconfortáveis quanto o próprio chão. Um grupo de mulheres, algumas delas com meninos de colo dialogavam sem parar enquanto se alternavam para segurar as crianças. Com uma garrafa de plástico na mão, distraiam-se ao tentar fazer um dos meninos urinar, reproduzindo o chiar das águas, enquanto estimulavam o órgão exposto da criança. Na China, é comum não se usar fraldas. As crianças, principalmente as do campo, vestem roupas com os fundilhos abertos.
  
Os Uyghurs ocupavam parte do vagão e tinham limitações para comunicar-se em mandarim, ao tentarem responder às inocentes perguntas de um jovem chinês perdido entre eles. Este por sua vez se esforçava para compreender o que diziam.
  
A maneira como se expressam as pessoas de Xinjiang em mandarim virou um estigma e motivos de chacotas entre os demais chineses. E acabou estendendo-se aos estrangeiros que não dominam bem a língua cuja aprendizagem mais cresce no mundo. Preste atenção como alguns chineses modificam o modo de falar quando conversam com “laowais” (gringos em mandarim). Da mesma forma que os imitamos, falando de maneira incorreta em português para fazer-nos entender, eles também o fazem usando o sotaque de Xinjiang para se comunicar conosco. Sempre que percebo isso, pergunto de maneira humorada se a pessoa é de Xinjiang e porque está usando aquele sotaque para falar comigo. Em contrapartida costumam responder: vocês estrangeiros não falam assim?
  
Por conta disso, costumo chamar a atenção de brasileiros que falam que nem índio quando se comunicam com chineses que vivem no Brasil. Desta maneira, o português deles nunca vai evoluir, pois o parâmetro que têm do nosso idioma é distorcido.
  
Para finalizar esta enredada história, notei um sujeito com boné, trajado de maneira elegante, de baixa estatura, e com ares de ocidental, circulando pelos vagões. Quase no fim da viagem, eu o vi reunir-se com os Uyghurs e dar-lhes instruções enquanto a mão direita interagia com o que dizia e a esquerda segurava um maço de passagens, que supostamente seriam deles. A cidade de Wuxi, que fica próxima a Xangai era o destino deles, porém o que lhes reservava o destino era tão inescrutável quanto o dialeto que falavam.
  

2 respostas em “Cinema Mudo 

  1. Parabens amigo, realmente tenho que dizer que voce ‘e uma fonte de informaçoes para quem nao conhece nada da china (eu,kk), nem quero imaginar como voce chegou em casa, a tua alma deve estar viajando ainda, kkkkkk,,,boa sorte e por favor coloque mais das suas aventuras, é um prazer ler elas.

    Grande Abrazo, Carlos Daniel.

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