Os Párias do Aeroporto

 

A crônica abaixo passou a tomar forma a partir da primeira vez que passei 12 dias no aeroporto de Hong Kong, em 2013, por conta de um contratempo para renovar meu visto chinês. Por sorte, morara durante um ano em Tsing Yi, uma ilha que fica a meia hora do aeroporto. Portanto, diariamente, deslocava-me até um centro esportivo público da ilha para correr e duchar-me. Além disso, aproveitava para comprar mantimentos como frutas, pães e refeições pegue-leve. 

Na ocasião, lera um artigo (links no pé da página) sobre desabrigados que viviam no aeroporto de Heathrow, em Londres. Já havia pernoitado e transitado por diversos aeroportos ao redor do mundo, não obstante nunca me dera conta da possibilidade de existir gente habitando esses portos de confluência humana.

Na medida do possível, detenho-me para tentar ouvir e apreender um pouco da história dessas pessoas que encontram-se ali por motivos diversos, sejam eles financeiros, à espera de emissão de visto, estilo de vida, estratégia de viagem ou estudo sociológico. Voltarei ao tema, quando tiver mais material para publicação.

  

 

Após ponderar por um momento sobre uma frase que lhe fisgara o pensamento, descansou o braço num movimento lentamente descendente, debruçando o espesso livro sobre o colo. A visão embaralhada ia reencaixando-se, peça à peça, que nem um quebra-cabeça em 3D. No mesmo compasso, sua mente tentava discernir o que se passava à sua volta.

O fragrante de um moderno casal chinês a se abraçar em público entre sorrisos e beijos ternos logo lhe reteve a atenção. Entreteve-se por uns segundos, logo em seguida bailou os olhos pelo saguão, e entrelaçou-os  a um esguio par de pernas com o qual dançou exótico tango asiático, até que o olhar da moça retribuiu-lhe de soslaio o prazer da dança enquanto destilava o jargão feminino de realçar o cabelo ao perceber estar sendo observada. Vozes filipinas tagalogueavam-se entre si num ritmo frenético, pausando apenas para respirarem em meio a sonoras  risadas

Fazia cinco dias que levava no aeroporto de Hong Kong. Sempre que ia para renovar o visto e poder voltar à China, trocava o conforto de um hotel por vívidas experiências que o confortavam muito mais que o trato burguês de uma estadia sobre uma cama pré-paga.

Nesse meio tempo já distinguira os passageiros dos hóspedes do aeroporto. Sabia quem era quem naquele vai e vem de gente.

A personagem mais distinta, que notara em 2013, quando da primeira vez que se hospedara ali, já não fazia parte do terminal 1 com seu estilo artístico e que diariamente trazia à tona suas vertigens lunáticas em voz alta enquanto alguns passageiros assistiam de camarote e outros seguiam sem desviar-se de seus rumos. 

  

  

Alojada há quase dois anos numa fileira de bancos, no canto esquerdo do terminal de desembarque, uma asiática de origem desconhecida passava os  dias a costurar, lendo jornais em inglês e navegar na internet, entrincheirada, por três carrinhos repletos de malas – vestígios que restaram de uma vida.

  

  

 

 

Numa de suas estadias num dos aeroportos mais movimentados da Ásia, vira um senhor percorrer os diversos cafés e lojas de conveniência do local em busca de restos de comida, que o pobre homem armazenava meticulosamente em saquinhos. As bebidas ganhavam um único recipiente, e viravam um amálgama de sabores. Sabores que este já não conseguia distinguir em seus amargurados dias de andarilho.

 

   

 

Havia pessoas que ali passavam a noite apenas. Havia as que tentavam aplicar golpes. Havia gente distinta, com laptops, que consumia no Starbucks, que ali levavam semanas ou meses alojadas. Via diversas pessoas a circular pelo aeroporto, mas sem definir-se por um voo. Sem um destino. 
   

 

Queria compreender o destino daqueles seres que continuavam no aeroporto, sem um porto seguro. Ele já havia passado por um par de pés a circular em busca de sua rota, no entanto não entendia aqueles habitantes indefinidos do aeroporto.
 
 
 

 

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