O Ajardinador de Palavras

Sempre acreditei que o verdadeiro poeta/escritor fosse aquele que de improviso, ao colher a palavra viva, a replantasse e a fizesse desabrochar com a força do verbo. Ignácio de Loyola Brandão, hoje à noite, provou ser um autêntico ajardinador de palavras ao participar de evento de divulgação de dois de seus livros que foram laureados com o prêmio Jabuti, na Livraria Cultura. Estavam presentes a curadora do Prêmio Jabuti, Marisa Lajolo, e o editor da Revista Cultura, Gustavo Ranieri Oliveira.
  
Ao final do evento, diante de um ilustre representante da literatura moderna brasileira, consegui oferecer-lhe apenas um buquê de palavras murchas. A cabeça espremia-se e, nenhuma de suas crônicas que lera, achava lugar em minha memória naquele rarefeito momento de fã. Poderia ter-lhe perguntado se já tivera alguma obra sua publicada em chinês e, se não tivesse sido, se havia algum interesse em ver seu mundo literário em mandarim, porém a timidez fez-se atriz e ganhou o papel principal em minha fala.

 
“O Menino Que Vendia Palavras” recebeu, em 2008, o Prêmio Jabuti como o melhor Livro do Ano de Ficção. 
“O Homem Que Odiava A Segunda-Feira” foi premiado com o Jabuti, em 2000, como o melhor Livro de Contos.

O iPod cuja lente da câmera principal encontrava-se quebrada e que tinha a maioria dos aplicativos que mais uso (Facebook, WeChat, e-mails, Skype, etc.), estava pronto para registrar um selfie junto ao autor de Não Verás País Nenhum, posto que não queria incomodar ninguém para me ajudar naquele momento de leitor tiete. No entanto, não contava com a graciosidade solicita de uma leitora que prontificou-se a tirar uma foto nossa. Portanto, parecendo um excêntrico padecedor do vício de se viver à mercê da comunicação, saquei às pressas dos bolsos do casaco e da calça dois celulares que teimavam em ser achados, sendo apenas um que prestava a tal serviço, para registrar aquela que passava a ser uma crônica plausível dessas tortas linhas. Sem tempo hábil para explicar-lhe que, no ano passado, perdera dois iPhones 5S e um Le Novo por conta de etílicas desventuras pelas ruas de Xangai, e que um dos celulares (que tem uma câmera pobre) servia apenas para usar o WhatsApp e, o outro, que acabara de ganhar de um cliente, não podia ser usado porque moro na China e para ativar dois importantes aplicativos que uso com frequência precisaria do meu número chinês funcionando em terra brasilis – e, como me esquecera de solicitar à minha operadora chinesa, tenho que ficar andando com três aparelhos. Esse aglomerado de informações dariam um nó em seu cérebro e em minha língua ao tentar desatar tal narrativa. 

    Refém da tecnologia: três aparelhos para se comunicar com o mundo.

Agradeci-lhe, quase desaparecendo em mim por ter esquecido de trazer dinheiro para comprar seus livros e ter a honra de ver sua mão deslizar uma dedicatória a este incauto leitor.
Ao virar-me para buscar a saída, notei uma bela loira – com tintes de artista e trejeitos desajeitados que fizeram Cupido pousar ao meu lado – cruzar o salão, após ter participado do evento como ouvinte, e descer as escadas em direção ao térreo – encontrávamo-nos no terceiro andar. Ainda hipnotizado por ela, tentando lembrar onde vira aquele rosto triste antes, desci um vão de escadas a fim de pousar os olhos uma vez mais sobre sua alva pele. 

Ao por os pés no térreo, parou por um momento cumprimentando um senhor de estatura baixa e bigode grisalho comprido. No afã de descobrir a identidade daquela bela dona, meu cérebro fez-me acreditar que aquele senhor era o Devanei e que talvez a conhecesse e a pudesse apresentar-me. Devanei é uma  personagem que conhecera fazia duas semanas, durante um churrasco na casa de uma amiga em São Caetano do Sul. Portanto, desci correndo ao térreo e, ao aproximar-me do homem do bigode, dei-me conta de meu devaneio. Por pouco não abordei o autor Pedro Bandeira, também presente no evento, pensando ser o Devanei e seu bigode asa de andorinha – como ele mesmo intitula seu ornamental e imponente companheiro. 

  
O escritor Pedro Bandeira… 
…e seu quase sósia, Devanei.

Segui o fluxo de pessoas que saiam da livraria, atravessei a galeria do Conjunto Nacional, em direção à Paulista, e uma vez mais vi a dama que me conduzira àquela insana saga, parada num café à espera de seu pedido. Desacelerei o passo e entrei no ritmo da suave música que alguém tocava num clarinete, lá na calçada. Ainda na ânsia de ver suas feições solidificarem-se em minha memória, ao ganhar corpo junto à lembrança de algum rosto conhecido, lancei um último e demorado olhar para trás. E assobiando segui, ainda que descompassado, porém vestido de gala com a melodia que o clarinete envolvia a noite.

3 respostas em “O Ajardinador de Palavras

  1. Tanta sorte em um só dia com tão escassos meios para uma simples foto. Da próxima vez, além dos três telefones, leve também uma câmara.

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