O Golpe do E-Mail Hackeado

  
Recentemente, li no grupo Brasileiros na China, numa rede social, o pedido de ajuda de um dos membros para um caso que costuma acontecer com frequência com quem resolve importar, sem a devida assessoria, da China.
A pessoa queria comprar um motor. Encontrou um fornecedor por conta própria. E quando estava para efetuar o pagamento dos 30% de caução, que são cobrados para dar início à produção, sendo os demais 70% pagos antes do embarque, recebeu um e-mail pedindo para efetuar o depósito numa conta da Bulgária. Sem cautela nenhuma e por inexperiência de comércio exterior, o depósito acabou sendo feito pelo comprador. Após enviar ao vendedor o comprovante da remessa transferida, o mundo desabou ao receber a comunicação de que o dinheiro não tinha entrado na conta e que ele, o comprador, tinha sido vítima de um hacker. Foi quando se deu conta de que o e-mail tinha uma letra a mais em seu endereço eletrônico –  o e-mail que, a título de exemplo, a princípio recebera, gilsonroberto@gmail.com, mudara imperceptivelmente para gilsonrroberto@gmail.com.

A maioria dos vendedores de fábricas não tem uma conta de e-mail de um provedor próprio. Utilizam contas gratuitas como Hotmail, 163, QQ, etc, o que possibilita esse tipo de golpe. 

Não se sabe se há conivência da fábrica ou se realmente o hacker age por conta própria. 

Em 2012, ocorreu o mesmo com um cliente antigo que importa malas e mochilas. O contato com o fornecedor dera-se durante a Feira de Cantão, no ano anterior. De todos os estandes que percorreram e fecharam pedido, somente um não teve a fábrica visitada. E foi justamente esse que lhes ocasionou um prejuízo de 40 mil dólares. Como não costumo acompanhar o que ocorre após as negociações, fiquei a par do assunto somente depois que o dinheiro fora transferido para uma conta que não tinha relação nenhuma com a fábrica de malas. Quem estava cuidando do pedido era um tal de Lee Jun, com quem conversamos na feira, e que trabalhava para uma trade de Xangai – embora a fábrica ficasse em Wenzhou. 
Fui até o suposto endereço do escritório da trade, porém não encontrei nada. Liguei para o Lee Jun que me atendeu com uma voz suspeita, intercalando risadinhas sarcásticas de quem tentava encobrir uma mentira.

Pelo histórico dos e-mails trocados, é visível a trama urdida. Como o comprador não fala inglês, tudo foi tratado por intermédio da escrita e com o auxílio de um tradutor automático – o que facilitou ainda mais a ação dos golpistas, posto que um telefonema ou conversa via Skype, para confirmar e entender o motivo da mudança de conta, teria evitado esse prejuízo. 

Dois contêineres haviam sido pagos. Restavam mais dois. Lee Jun afirma que enviou um contêiner antes de receber o pagamento total, portanto se recusa a liberar a BL para que se possam nacionalizar os produtos. Em um e-mail confirma o pagamento, no outro, nega. Some durante um tempo, depois reaparece dizendo que o escritório havia pegado fogo e, portanto, não tinha como fornecer a BL. Some novamente. Após receber o meu telefonema, pois não contava que houvesse alguém na China para tratar do assunto, passa a responder os e-mails porém com uma outra conta, que difere da original apenas por uma letra. E coloca a culpa no hacker. Enquanto isso, a mercadoria continuava parada no porto, gerando demurrage, e tornando inviável a importação por conta das altas taxas de multa. 

Como esse golpe passou a ser um clássico, acredito que contas bancárias internacionais estão sendo utilizadas para evitar a eventual intervenção de um escritório de advocacia para cuidar do caso e chamar para depoimento os responsáveis pelas contas nacionais.

Na China, a troca de funcionários nas fábricas, especialmente vendedores que “falam” inglês, é constante. A maioria é jovem, que acabou de se formar, e está sempre em busca de melhores oportunidades e condições de trabalho. Isso confunde um pouco quem está do outro lado do mundo tentando fechar uma compra. Portanto, vale tomar algumas precauções antes de se fechar um suposto negócio da China, por mais que você há anos venha lidando com fornecedores daqui, sem nem mesmo nunca ter posto os pés nessas terras distantes. 

  • A primeira opção é óbvia, ter um colaborador in loco para eventualmente visitar fábricas, negociar melhores valores, certificar-se de que não há riscos financeiros. 
  • Não confie somente na comunicação através de e-mails. Procure  utilizar o Skype para uma videoconferência. Instale o QQ (programa de troca de mensagens mais utilizado pelos chineses) ou o WeChat que permitem chamadas de voz e de vídeo, desta maneira você terá um contato visual com o fornecedor.
  • Se o fornecedor repentinamente solicitar que o dinheiro seja transferido para uma conta diferente da inicial, somente dê sequência se o favorecido for o mesmo. Ou seja, se o nome da empresa for outro, entre em contato com o responsável pelo seu pedido e questione o motivo da troca de conta. 
  • Sempre que puder, viaje à China para visitar os fornecedores e estreitar os laços de parceria comercial. Não se deslumbre com a Feira de Cantão. Há muitas empresas desonestas atuando lá. É possível encontrar melhores preços, basta descobrir onde é o polo industrial do seu produto e gastar uns dias garimpando fornecedores. Devido à dimensão desse continente de fábricas que é a China, às vezes haverá mais do que um polo de indústrias de determinado seguimento. 

Para os que estão a caminho de mais uma edição da Feira de Cantão, muita cautela e sucesso nos negócios. Não confie demais na sorte e experiência, por mais que você já tenha vindo inúmeras vezes para esse evento que atrai milhares de comerciantes, todos os anos. 

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